quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Conclusão do Gênesis e Bibliografia utilizada para elaboração do material apresentado! Assim terminamos o estudo dirigido desse belíssimo livro! Abraços catequistas e sempre que possível, aprofundem seus conhecimentos! :)

LIVRO DO GÊNESIS (VII)

CONCLUSÃO

O tema das relações humanas essenciais, uma metonímia para o laço que une a humanidade, é tratado com crescente complexidade desde o início do Gênesis até seu fim. Desse modo, é esse o ponto que gostaria de refletir melhor na conclusão desse belo livro das origens e das gerações.

O ser humano não se encerra em sua individualidade e somente consegue realizar e atualizar sua humanidade por meio das relações maduras com o outro, com a natureza, com Deus. Sem elas o homem é enfraquecido e não se encontra com a felicidade desejada pelo Criador.

No relato da criação, percebemos que a relação que estabelecemos com o mundo material, vegetal e animal é relação progressivamente baseada na experiência de dominar a natureza e favorecer ao homem o uso desses meios para manter-se vivo, relação do eu com o objeto visando manter o equilíbrio ou criar um equilíbrio novo por meio da humanização e racionalização desse objeto, ou do próprio mundo. Dessa relação, quando bem desenvolvida, pode surgir a arte; o homem encantando-se com o trabalho, com a natureza ornamentada, com a música, com a beleza. Mesmo sendo expulso do paraíso, uma metáfora da natureza pronta, o homem tem o compromisso de cuidar e zelar belo bem da criação. A luta pela terra prometida, que fez os patriarcas se desinstalarem, marca a busca da relação de sobrevivência com qualidade, da terra onde possa emanar leite e mel.

O caos da relação com o mundo vai dar-se na banalização ou supervalorização das coisas: banaliza-se quando as coisas perdem seu valor e são destruídas, a exemplo disso o meio ambiente, tão agredido no século XX, e supervaloriza-se quando o homem torna-se escravo das coisas e depende delas para ser feliz ou conviver, situação presente na excessiva valorização dos bens de consumo, propagados no marketing e nas frias relações digitais estabelecidas através das novas tecnologias. O progresso da ciência, que aos poucos vai se dogmatizando como verdade absoluta, causa uma grande confusão nas relações, fazendo o homem fechar-se na proposta de progresso, sem preocupação com as consequências e a saudável relação necessária com o outro e também com o divino, transformando tudo em instrumento do bem-estar pessoal, sem qualquer consideração ética.

O homem partilha sua existência com outros homens e estabelece com estes, portanto, uma relação de interação, de convivência e de solidariedade: “Não é bom que o homem esteja sozinho...” (Gn 2,18). É nesta relação com seus semelhantes que o indivíduo é verdadeiramente transformado em ser humano; sem a experiência social o homem não se completa já que o outro complementa a particular visão de mundo, sendo sempre o tu que ultrapassa as limitações individuais por meio da interatividade. Desta relação, quando madura e consciente, pode surgir a relação pontual da intersujetividade, o amor, a comunicação com o outro numa troca de profunda afetividade e o enriquecimento mútuo.

Tal relação, de fraternidade, está presente em todo o Gênesis, ora apontada de modo pleno, desejado por Deus, de respeito, às vezes desencontrada, porém, reconciliada, ora paradoxal, marcada por interesses egoístas, pela morte, pela manipulação e pela mentira.

Para que essa relação seja realmente humana, faz-se necessário o diálogo, a ação do viver junto e estabelecer uma relação com o outro sem submetê-lo, sem haver uso ou relacionamento de manipulação instrumental, transformando o outro em objeto e meio, situação que pode desenvolver uma tragédia existencial. O grande perigo nessa relação está em transformar o outro em objeto, ridicularizar o amor (como fez os irmãos a José), utilizar-se do outro para benefícios (como fez Jacó com Esaú), para a auto-sustentação, para uma relação de desumanização e massificação, visando sempre benefícios e retornos, principalmente econômicos (como fez Labão com Jacó). Roubar do outro o direito à consciência, à liberdade e à responsabilidade por suas ações (como na construção da Torre de Babel), submetendo-o a ser meio para conquistas quaisquer, pode gerar o desastre da “desumanização do homem”.

Diante das indagações acerca da contingência, da origem humana e de seu destino, surge a convicção de que deve haver um ser absoluto, criador, primeiro e último, ele sim necessário, razão suficiente e causa de tudo quanto existe – a este ser estamos vinculados através de uma relação essencial de dependência, de respeito. No Genesis, além disso, há uma relação de bênção, de necessidade de manutenção das experiências de fé, algumas vezes abaladas pela própria historia. A historia do homem e do universo, do povo e de uma terra, faz parte de uma experiência religiosa com o Deus que cria, que abençoa, que desinstala os patriarcas, que dá descendência e fertilidade, que aponta uma terra.  Assumir o Deus dos pais e considerar-se povo de Deus é o distintivo característico do livro das origens. Tudo procede de Deus e Deus é quem abençoa e dá a vida.

No entanto, o grande problema na relação com o Divino, que deveria ser uma relação que suprisse a pobreza ontológica essencial da contingência, encontra-se na manipulação e desmistificação desse Deus em contrapartida a uma exacerbação da autossuficiência humana (pecado original).  Portanto, o excesso de empirismo e o ateísmo somados aos interesses de religiões que apresentam um deus curandeiro de problemas diversos, colocam em risco a relação humana com o Criador.

O livro do Gênesis é um convite a lermos teologicamente o projeto de Deus para o homem: Deus quer-nos felizes e para isso, o homem precisa entender-se a partir de relações humanas maduras e ações conscientes.


 BIBLIOGRAFIA

ANDERSON, B.A. A narrativa de Babel, paradigma da unidade e diversidade humanas. In: Concilium, n. 121, p. 73-81 (1977).

BALANCIN, E.M. O homem em busca de sentido: uma leitura de Gn 1-11. In: Reflexão. PUC, n.10. p. 193-203.

________. Pentateuco. Apostila para estudo do Pentateuco. CES Sagrado Coraçao de Jesus. São José do Rio Preto, 2009.

_______. A história de Jacó e Labão. In: Vida Pastoral, n. 156, janeiro-fevereiro 1991, p.2-6.

BONORA, A. A fraternidade que salva. Gênesis 37-50. São Paulo: Paulinas, 1987.

CIMOSA, M. Gênesis de 1-11. A humanidade e sua origem. São Paulo: Paulinas, 1987.

DANIELOU, J. No princípio. Gênesis 1-11. Petrópolis: Vozes, 1964.

DATLER, F. Gênesis: texto e comentários. São Paulo: Paulinas, 1984.

GESHÉ. O mal. São Paulo: Paulinas, 2003.

KOCH, R. Teologia da Redenção em Gênesis.São Paulo: Paulinas, 1971.

LAWRENCE, T.E. Os sete pilares da sabedoria. Tradução de C. Machado. Rio de Janeiro: Record, 2000.

MESTERS, C. Paraíso e esperança. Saudade ou esperança? 5. ed. Petrópolis: Vozes, 1977.

RENDTORFF, Rolf. A História bíblica das origens (Gn 1-11) no contexto da redação sacerdotal do Pentateuco. In O Pentateuco em Questão. 2.ed. Petrópolis: Vozes, 2002. (p. 89-99)

STORNIOLO, I. EUCLIDES, E.M. Como ler o Livro do Gênesis. 11. ed. São Paulo: Paulus, 1990.

SCHWANTES, M. Projetos de Esperança. Meditações sobre Gênesis de 1 – 11. Vozes Sinodal, 1989.

VOGELS, W. Abraão e sua lenda. Gênesis 12, 1 – 25,11. São Paulo: Loyola, 2000.

VON RAD, G. Genesis. A Comentary. London, SCM Press, 1966.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Olá catequistas: os capítulos finais do livro do Gênesis é dedicado a saga de José! Bons estudos!

LIVRO DO GÊNESIS (VI)

3. A história de José: Deus age através dos acontecimentos (Gn 37,2 – 50,26)
A história de José tem uma coerência interna: Jacó aparece nela, mas é apresentado como um ancião fraco e preso às suas preferências afetivas. O núcleo do relato fala sobre o conflito e a venda de José (Gn 37), a subida de José ao poder (Gn 40 – 41) e as viagens dos irmãos ao Egito e a reconciliação (Gn 42 – 45).

Conforme Bonara, história de José é permeada por dois elementos essenciais: o homem responsável e livre na historicidade concreta e abertura ao pecado, que labuta pela própria auto-realização, mediante suas escolhas e decisões, e Deus que, com soberana e infinita liberdade, já escolheu o homem e fixou os rumos do relacionamento homem-Deus, desce do céu e mescla-se secretamente na história. A história de José se realiza e se desenrola entre a liberdade divina e a liberdade humana.

Nessa história, volta-se um olhar para a essência do homem, tratando de homens concretos, de uma família, exatamente da família de Jacó, que simboliza as realizações da comunidade humana.

3.1. Uma novela de um sábio
A história de José situa-se entre as narrativas dos patriarcas (aos quais é feita a promessa da terra) e a narrativa épica do Êxodo, desde a escravidão egípcia, que constitui o primeiro passo rumo ao ingresso à terra prometida.

No lugar onde se encontra na Bíblia, a história de José apresenta-se como ponte entre os patriarcas e o Êxodo, que é considerada a entrada dos hebreus no Egito.  

A saga de José pode ser considerada como um conto magistral: “Os irmãos de José chegaram a ele... José viu a seus irmãos e os reconheceu” (Gn 42,6-7). Mas “eles não o reconheceram” (Gn 42,8). A narrativa tem três momentos: uma condição inicial - a família está unida, os irmãos se reconhecem como irmãos; uma situação de crise – os irmãos se odeiam, não se falam, uns conspiram contra o outro até pensarem na matança; uma solução final - depois da reconciliação, o diálogo fraterno, a pacificação e a reunificação da família inteira. Essa estrutura é que se chama de princípio da transformação somada a descoberta de Deus que se faz presente às escondidas na história humana.

Para alguns estudiosos a história de José (inspirada no “Conto dos dois irmãos”, um interessante conto egípcio, escrito entre 1500 e 1000 a.C.) é um campo ideal, clássico, para “demonstrar” como e quando é importante e frutífero estudar a Bíblia com o método da distinção das “fontes”. Esse método de estudo é chamado de várias maneiras: mas comumente é chamado de “teoria documentária” ou “estudo da história das tradições”. A história de José não uma combinação de pedaços, de documentos, mas é a obra de um único autor que trabalha sobre as tradições anteriores.

A origem da narrativa sobre José pode ser assim definida: o rei Salomão, na sua corte em Jerusalém, promoveu um estudo literário, assim como o rei Mecenas, com intento de legitimar sua realeza. Um grupo de sábios ocuparam-se de coletar por escrito o patrimônio histórico-religioso do povo de Israel. O texto da história de José teve um profundo sentido religioso, mas também preocupação racional-filosófica. A história de José foi “retocada” e assimilou alguns acréscimos e fragmentos: Gn 41, 50-52 sobre os dois filhos de José, Manassés e Efraim, chefes da estirpe de duas tribos de Israel. (Gn 46,1-5, Gn 48, Gn, 23-25).  A história de José era vista pelo sacerdotes como “meio” para vincular os patriarcas com a Êxodo e para remarcar o tema da benção e da terra.
“Em atual configuração literária, a história de José tem grande importância teológica e tornou-se um esquema interpretativo concreto ou um modelo de compreensão da história e da existência humana à luz da fé javista”. (BONARA, 1987, p. 29). José não é, portanto, pura invenção poética da fantasia criadora do escritor Bíblico, mas encarna um dado histórico de grande realce para as origens das doze tribos de Israel.

3.2.  O homem como auto-realização
De acordo com G. Von Rad, a história de José distingue-se pelo seu mundanismo revolucionário, que descreve o inteiro âmbito da vida humana, todos os seus primores com profundo realismo. A história de José explica-se com o desenrolar das causas humanas: cada acontecimento tem uma exata e pontual justificativa nas circunstâncias, nas decisões, nas escolhas, nos pensamentos e nas paixões dos homens.

José no reino do faraó tem o cargo de ministro da agricultura e com poderes políticos, torna-se um personagem semelhante a vizir, de quem nos falam os antigos textos egípcios. Um sábio verdadeiro, um homem realizado: sábio, segundo a tradição da bíblia, não corresponde a “intelectual”, mas designa personalidade que tem dotes e recursos necessários para levar vida boa e feliz. Von Rad sublinha justamente que, mesmo tratando-se de formação humana, se reconhece que o temor de Deus é sempre a base. O ideal sapiencial é um humanismo religioso. Lembrando que a tradição sapiencial antiga, também bíblica, dá grande importância à arte de falar.

Na história de José tudo parece regulado segundo os interesses humanos das relações familiares, políticas etc. Temos uma história intensa e plenamente humana, profana, que não significa ,porém, uma história ateia e agnóstica.

3.3. Fraternidade e reconciliação: história da família de José
A história de José pode ser entendida a partir de dois grandes momentos:  Gn 37- 41: divisão da família e isolamento-exaltação do herói e Gn 42-50: submissão dos irmãos, reconciliação e restituição da unidade familiar.

Conforme Storniolo (1990, p. 52 – 61), o início da história de José é dramático e já aponta para o seu desenvolvimento posterior. José, filho de Jacó e Raquel, é o preferido do pai e se não bastasse isso, os sonhos que ele conta à família acabam suscitando ciúmes (Gn 37). José é repudiado por causa de seus sonhos proféticos.

A reação dos irmãos se faz logo a sentir e agora a narrativa se encaminha para o lugar onde tudo o mais acontecer: José é vendido para o Egito.
Além de estar longe do pai, José perde a liberdade, e de escravo torna-se prisioneiro. O autor do texto reforça por quatro vezes (Gn 39 – 41) que “Javé estava com José” e qualquer pessoa que possa ser instrumento de Deus recebe dele benção para todos que o cercam.

Para os antigos, o sonho era uma mensagem cifrada em que Deus se manifestava ao homem e a ele revelava o futuro. Mostrando que José é capaz de interpretar sonhos, o texto afirma que ele sabe discernir a ação de Deus na história.

Os sonhos do faraó tornam-se a ocasião concreta para a ascensão de José. Além de mostrar discernimento para interpretar os sonhos e perceber a ação de Deus, José demonstra também o tino administrativo que poderá salvar o país da fome (41, 33-36). Com isso, fica provado que José é sábio: é capaz de discernir a ação de Deus e agir de acordo. [...] Por seu discernimento e tino administrativo, José se torna vice-rei do Egito. (STORNIOLO, 1990, p. 54)
 
A família de Jacó passa por uma terrível crise e manda seus dois filhos mais velhos para o Egito. José reconheceu seus irmãos, mas eles não o reconheceram (Gn 42,8). José os coloca à prova , mantém Simeão de refém e pede para buscar seu irmão mais novo, Benjamim, filho de Raquel, também sua mãe (Gn 42,16): o que José quer de fato saber é se agora os irmãos são capazes de agir com fraternidade, quer saber como são capazes de tratar o irmão mais novo.

José age como juiz e como acusador para submeter os irmãos à prova para que eles reconheçam a culpa, se convertam e redescubram o amor fraterno. O segundo encontro é um encontro alegre (Gn 43): comem juntos, porém uma taça é colocada na saca de Benjamim, como marca do teste mais radical. O ponto alto da narrativa se dá com Judá, que confessa a venda de José ao Egito, contudo, não aceita que Benjamim fique como escravo, oferecendo-se em troca pelo irmão. Os irmãos estão dispostos a assumir a responsabilidade pelo irmão. O teste chega ao fim. O diálogo traz a reconciliação e o amor entre os irmãos. A verdadeira fraternidade é presente de Deus, que dirige os acontecimentos desta história invisivelmente.

Pode-se observar que a narrativa segue um esquema de transformação. A reconciliação fraterna é, portanto, o fruto e o símbolo do perdão e da misericórdia de Deus. Para Bonara:

Não existe em todo o Antigo Testamento uma tão plástica representação da reconciliação e uma tão sutil e profunda intuição do processo da reconciliação como há nesta novela maravilhosa que penetra tão profundamente dentro da realidade humana, com olhar claro e penetrante de fé. (1987, p. 64)

É nesta contraposição radical entre o plano ruim dos irmãos e o plano de salvação divina que a história de José alcança seu vértice teológico: Deus é essa presença de amor na humanidade. Deus e o homem são livres “criadores” da história.

“Deus age através dos homens: onde há o máximo desempenho do livre compromisso humano, aí há a presença de Deus, que projeta e dirige”. (BONARA, 1987, p. 71)

Na narrativa dos acontecimentos de José, Deus dá ao agir humano a sua direção e finalidade, que resulta no plano divino, liberdade do agir humano e liberdade de Deus operam em conjunto e ao mesmo tempo.

**Roberto Bocalete

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Ola catequistas, e todo povo de Deus! Hoje vamos aprofundar o ciclo de Jacó, um dos nossos patriarcas! Bíblia nas mãos: façamos uma leitura atenta! Bons estudos e abraços...

LIVRO DO GÊNESIS (V)

2. O Ciclo de Isaac e de Jacó (Gn 25,19  - 37-1)
A história dos patriarcas não é história somente de indivíduos, como já salientado, mas de grupos que estão na base da formação de Israel. Os grupos principais são de Abraão e Jacó. O grupo de Isaac serve de ligação genealógica entre os dois primeiros e faz parte do grupo de Abraão. (STORNIOLO, 1990, p. 43)

A história de Jacó ocupa maior parte do livro, porque é nela que as tribos encontram suas raízes. O ciclo de Jacó tem suas próprias características. Para Balancin (2009, p. 60-61), provavelmente formava uma história independente antes de fazer parte do livro do Gênesis. A historia de Jacó é mais unificada que a história de Abraão e pode-se focalizar facilmente a unidade narrativa que descreve os conflitos de Jacó com seu irmão Esaú e com seu tio Labão.

O ciclo de Jacó pode ser assim dividido:
a) Os episódios da rivalidade entre Esaú e Jacó – roubo da primogenitura e da bênção (Gn 25, 27 – 34; 27,1 – 45)
b) A visão de Betel (Gn 28)
c) Os conflitos entre Jacó e seu tio/sogro/patrão Labão (Gn 29,1 – 32, 1)
d) O retorno à terra de Canaã (Gn 32 – 33; 35, 1 – 8. 16 – 20) 

A história de Jacó surgiu no norte e está vinculada a lugares próprios do norte: Betel, Siquem ou Fanuel.

2.1. A rivalidade entre Esaú e Jacó (Gn 25, 27 – 34; 27, 1 – 45)
Conforme Storniolo (1990, p.44) a história de Esaú e Jacó é desde o início uma história de conflito. Esaú perde seu direito de filho mais velho quando Jacó, aliado a sua mãe Rebeca, usa um estratagema para conseguir a bênção do pai reservada ao filho mais velho. Jacó tem que pagar pela trapaça, por isso foge para longe, para agora ser enganado por seu tio Labão.  

De acordo com Balancin, essa historia requer, dentro do contexto, uma reconciliação (Gn 32,4 – 33,11) e uma nova separação (Gn 33,12 – 17). Além dos elementos étnicos e etiológicos que aí são encontrados, é interessante salientar uma outra perspectiva:  a retomada da fraternidade. É dentro dessa perspectiva que vamos encontrar o episódio da assustadora noite junto ao rio de Jaboc (Gn 32, 23 – 33). ‘e uma questão de vida ou morte que requer uma renovação interior para que não haja um total endurecimento do coração.

Voltando para casa, depois de vinte anos fora, segundo Dattler (1984, p.177) Jacó vai ter que enfrentar o seu irmão que enganou, vai ter que se haver com seu passado fraudulento em relação a Esaú, e para isso terá que passar por um processo de amadurecimento. A mensagem do episódio é clara: Jacó precisa ser encorajado em vésperas do encontro temido com Esaú.

A tentativa de agradar ou fugir do irmão não funciona, pois o sentimento de culpa apodera-se de Jacó, que ao tentar subornar Esaú com presentes, ainda não reconhece claramente sua culpa e não pede perdão. Para que haja esse reconhecimento, Jacó fica só e passa a noite a encarar sua sombra e o desconhecido (episodio no rio Jaboc): “e alguém lutou com ele até surgir a aurora. Vendo que ele não o dominava, tocou-lhe na articulação da coxa, e a coxa de Jacó se deslocou enquanto lutava com ele (vv. 25-26). A angústia de Jacó de não se separar do misterioso ser provém do fato de ele querer ser abençoado e para receber a bênção, terá antes o nome mudado: “ não te chamarás mais Jacó, mas Israel” (v.29), isto é, recebe uma nova missão dentro do projeto de Deus: ser bênção para o irmão. E isso ele entendeu, de fato, o presente que agora Jacó dará a Esaú é uma bênção. Ao enfrentar a si mesmo e suas sombras, Jacó é abençoado por Deus e agora pode se encontrar fraternalmente com seu irmão. O pecado do fratricídio, como animal acuado de tocaia, foi vencido e agora cada irmão poderá seguir seu caminho (Gn 33, 12 – 16).        

2.2. A história de Jacó e Labão (Gn 29, 1 – 32,1)
Aqui evidentemente está refletida a história dos encontros  e desencontros de dois povos, Aram e Israel, lutando por sua soberania, com demarcação de territórios e, portanto, procede no nível de relações internacionais.

2.2.1. Jacó amou Raquel (Gn 29, 1 – 30)
Jacó foge do irmão após roubar a bênção da primogenitura, chega a um poço e se encontra com a prima Raquel [amor a primeira vista]. O encontro familiar na casa de Labão é emocionante; um mês depois, inicia-se o encontro de negócios: a relação familiar começa a se desgastar – proposta de salário, de tio-sobrinho a relação transforma-se em patrão-empregado. Jacó, porém, mistura negócios com amor: “E Jacó amou Raquel” (Gn 29, 18). Apesar de ter servido o patrão por sete anos em troca da mão de Raquel, Labão dá Lia a Jacó no lugar de sua amada. Uma nova proposta é feita: mais sete anos de trabalho, o patrão lhe dá a mão de Raquel.

2.2.2. Jacó defende seus direitos (Gn 30, 25 – 31, 21)
Catorze anos depois, a família formada, com filhos para criar, Jacó começa a despertar, já não é mais um ingênuo apaixonado; cansou-se da exploração do  sogro-tio-patrão e quer partir, voltar para suas terras com as mulheres e filhos. Labão percebe que vai perder um empregado eficiente e barato, reconhece que foi graças q ele que acumulou o que tinha: há uma proposta nova de salário (30, 27 – 28). Jacó aceita, mas já tem planos para ganhar sua dependência econômica: agora Jacó fica rico em seis anos e o sogro cai na armadilha da ganância. Os filhos do tio-patrão não toleram esse progresso e acusam o empregado de roubo. Jacó faz uma reunião urgente de família, com suas esposas, e decide ir embora, com o apoio das mulheres que já se sentem vendidas pelo pai. Na casa do pai, Raquel se apossa do terafim, um ídolo doméstico, sinal da bênção protetora e preservação da herança, roubando do pai a proteção e a prosperidade que o pai lhe havia tirado e que ela tinha direito.  

2.2.3. Jacó assegura seus direitos (Gn 31, 22 – 32, 3)
Apesar da perseguição cuidadosa de Labão em busca do terafim, que Raquel o esconde com esperteza, Jacó discute com o sogro sobre a exploração sofrida e o momento é concluído com uma aliança de separação pacífica: o litígio familiar termina por meio de um acordo, em que Jacó e sua família são reconhecidos como independentes. Agora Jacó segue seu caminho para reencontrar seu irmão;  antes, luta com deus, recebe a bênção para devolve-la a Esaú. 

Uma brilhante conclusão é dada por Balancin (2009, p.73) dos conflitos que marcam o ciclo de Jacó: "A vida ensina: Jacó que havia tapeado o irmão Esaú, é tapeado pelo tio; havia roubado a bênção, agora seu salário é mudado três vezes; havia se apossado da bênção da primogenitura, agora é preciso lutar com Deus para que este lhe conceda a bênção (no vale de Jaboc) e essa bênção seja devolvida ao irmão do qual ele roubara a bênção. Jacó sofreu na pele o que fizera seu irmão sofrer, aprendeu. Então retorna, e a fraternidade se restabelece e cada um pode continuar seu caminho".

2.3. Os filhos de Jacó (Gn 29, 32 – 30, 24; 35, 16 – 19)
Segundo esses textos do Genesis, os filhos de Jacó são os seguintes:
* De Lia: Ruben, Simeão, Judá, Levi, Issacar, Dina.
* De Raquel: José e Benjamim.
* De Bala (escrava de Raquel): Dã e Neftali.
* De Zelfa (escrava de Lia): Gad e Aser.
 Esses nomes, somados aos filhos de José, Efraim e Manasses, são várias vezes citados como representantes das tribos de Israel.

domingo, 28 de outubro de 2012

Olá amigos e amigas catequistas! Bíblia nas mãos - entraremos agora na segunda parte do livro do Gênesis, refletindo a história dos patriarcas: Abraão será o primeiro deles! Como pai da fé, acreditou sem exigências! Importante para pensarmos nesse ponto neste Ano da fé! Abraços...

LIVRO DO GÊNESIS (IV)

B) HISTÓRIA DOS PATRIARCAS E HISTÓRIA DE JOSÉ (Gn 12-50)
 Storniolo (1990, p.36-37) afirma que por trás das personagens individuais dos patriarcas há, na verdade, grupos inteiros; mais do que laços de sangue, o que une esses grupos é um objetivo comum: são grupos que se inscrevem nos grandes movimentos arameus em busca de uma terra fértil para se instalar. Ao contrário de outros grupos já fixados, estes grupos de seminômades em busca de terra professavam a fé num único Deus diferente, chamado Deus dos pais; a característica principal dessa divindade é o fato de não ficar localizada num templo, mas acompanhar o movimento dos grupos, como uma espécie de Deus itinerante.

Ao ler a história dos patriarcas deve-se estar atento ao fato de que são historias de grupos diferentes, refletindo situações diferentes, em épocas concretas e diversas. A feição contínua foi dada pelos redatores finais a fim de elaborar uma história contínua para veicular uma teologia.

1. O Ciclo de Abraão: o dinamismo da fé (Gn 12, 1 – 25,18)
De acordo com Vogels (2000, p. 53-54), o texto de Abraão foi escrito, transmitido e preservado como texto religioso, apesar das diversas possibilidades de leitura do texto. No entanto, para leitura da fé, é preciso levar em consideração a presença de uma outra cultura.

Com Abraão começa a história do povo de Deus e desde o início, o patriarca aparece como homem cuja vida é determinada pela fé, que consiste em deixar as seguranças (terras, parentes) e ir para uma terra que ele não conhece. O que motiva esse movimento, conforme afirma Storniolo (1990, p.37), é a promessa de se tornar um grande povo e possuir uma terra “onde corre leite e mel” como propriedade; isso era o anseio do seminômade: terra para todos os rebanhos e descendência para perpetuar o nome e continuar a existência da família. “Todavia, no clima da fé, o horizonte é maior: tornar-se um povo numeroso, portador da bênção e, portanto, de uma vida para toda a humanidade (Gn 12, 1- 4,7)”.

A fé é dinamismo que provoca mudança: o processo de “sair e ir em busca” não marca um simples movimento geográfico, mas transformação da realidade; não qualquer mudança, mas aquela que satisfaz às aspirações legitimas, tanto de Deus como do homem.

1.1.  O Chamado (Gn 12, 1 – 4a)
De acordo com Balancin (2009, p. 48 – 59), este trecho é considerado tradicionalmente texto javista, porém estudos recentes revelam que é provavelmente pós-exílico, o que seria pertencente à tradição sacerdotal. A finalidade deste trecho, portanto, é converter Abraão no antepassado dos exilados que retornam da Babilônia para Israel e legitimar as suas prerrogativas diante daqueles que permanecerem no país. O povo de Israel, ao longo da sua história, sempre buscou em suas tradições novas razoes para viver e esperar.

O chamado de Abraão é marcado por expressões interessantes para serem analisadas: “saia da tua terra”, “vá para terra que eu lhe mostrarei”, “farei de você um grande povo, e o abençoarei”, “abençoarei todos os que abençoarem você”. A saída, a descendência, a terra ; no processo vocacional do povo de Deus é imprescindível a saída (verbo no imperativo), o desinstalar-se, e sem tal ação, não se constrói uma grande nação e nem se tem abertura para o mundo (famílias da terra). O que motiva a desinstalação é a promessa da benção, da descendência e da terra.

A saída/desinstalação não é irracional, ela se dá em busca de uma meta: “sê uma benção, que significa comunicação de vida, vigor, força, fecundidade e paz. E herdar a benção significa entrar numa vida livre e frutífera, sair da escravidão, do esforço vão e da peregrinação sem destino, do temor da morte e superar a incapacidade que os povos têm de agir solidariamente. Diante desse chamado de Abraão, que dá início à formação do povo de Deus, o “programa geral” dos descendentes de Abraão é ser povo de Deus.

1.2. As delimitações (Gn 13, 14 – 17; 15, 1 – 5; 15 - 17)
Algumas delimitações podem ser notadas no processo da promessa: e a descendência? E a terra com largueza? A primeira delimitação encontrada pode ser notada na separação de Abraão e Ló: seriam unidos e se separam, delimitação que provoca conflitos, já que posteriormente se tornarão inimigos.

A segunda delimitação se refere ao território: “eu te darei toda a terra que está vendo”, só que Abraão foi somente até Hebron, onde se estabeleceu, a posse da terra restrita a uma campo. A outra delimitação, esta bem grande, poda na raiz qualquer possibilidade da promessa se realizar – a descendência impossível: Gn 13,15 “tornarei a sua descendência como a poeira da terra: quem puder contar os grãos de poeira da terra poderá contar seus descendentes” e Gn 15,2 “Continuo sem filhos...”, nota-se aqui uma atitude pessimista sobre a concretude da promessa divina.

Conforme Storniolo (1990, p.38-39) , diante da impossibilidade da descendência, em Gn 15-17, observa-se uma crise de Abraão, que tenta criar um meio para que as aspirações profundas se realizem, viabilizando, segundo a visão humana, aquilo que Deus prometeu. Abraão tem um filho com Agar,a escrava de Sara, um subterfúgio legítimo naquele tempo para que a família não ficasse sem descendência.

Todavia, o caminho não é facilitar as coisas. O que parece impossível para a visão humana, não é impossível para Deus (18,14). A fé exige entrega e confiança total, pois o mais intimo das aspirações humanas só pode ser realizado pela graça de Deus. [...] Deus tem seus próprios caminhos.

As crises de fé mostram bem que a origem e a formação do povo de Deus acontecem por meio da impossibilidade humana,tudo para que o homem compreenda a solução divina que ocorre por pura graça do Deus da aliança.

1.3. A promessa se faz realidade (Gn 21, 1 – 7)
O nascimento de Isaac restabelece a concretude da promessa da descendência. Embora esta passagem seja complexa, pode ser de redação final sacerdotal e continuação de Gn 17,21, coloca assim o nascimento de Isaac dentro do contexto da Aliança.

1.4. O futuro em jogo (Gn 22, 1 – 19)
O relato do não-sacrifício de Isaac, que a tradição judaica chama de “O amarramento de Isaac”, talvez tenha sido uma narrativa independente que pretendia mostrar a superação dos sacrifícios humanos dentro da religião israelita, através do resgate de Isaac que é substituído por um cordeiro.
 Em Gn 12,1, Deus havia pedido a Abraão que fizesse uma saída-desintalação para a realização de uma bela promessa; era a ele pedido que deixasse o seu passado; agora o patriarca será colocado por Deus diante da escolha essencial: pede-lhe que entregue em suas mãos o futuro. Abrão se sentia obediente a voz de Deus ao deixar o seu passado, passara pelo paradoxo da esterilidade, e agora Abraão se depara com um novo absurdo que lhe é incompreensível: “Tome seu filho, o seu único filho Isaac, a quem você ama, vá a terra de Moriá e ofereça-o em holocausto, sobre uma montanha que eu vou lhe mostrar”(22,2). A frase vai acentuando a monstruosidade da ação e nos versículos seguintes, 3-8, a preparação para o sacrifício é narrada de forma lenta e angustiante, fazendo o leitor participar do mal-estar de Abraão, que estava tomando uma decisão que contrariava tudo aquilo que o fez “sair’: a desinstalação parecia inútil e seria a promessa irracional?

A narrativa (VV. 9-10) continua lenta: “chega ao lugar... constrói um altar... arruma a lenha... amarra o filho... coloca-o no altar... em cima da lenha... estende a mão... pega a faca...”. No versículo 11 entra em cena um novo personagem: o anjo de Javé (na verdade uma maneira de expressar a presença de Deus de forma indireta, com respeito a sua soberania). Abraão crê e obedece a Deus e ao mostrar sua disposição em renunciar seu único filho, o patriarca recebe-o de volta e uma união mais profunda começa, tanto entre pai e filho como entre o Senhor e seu obediente seguidor.

Ao depositar o seu futuro nas mãos de Deus, obedecendo-o, Abraão reentra no projeto divino, deixando de lado seu próprio projeto, e assim ele não somente não perde o filho, mas recupera a fonte básica para que a promessa se realize. Inicia-se novo ciclo: o de [Isaac e] Jacó. (BALANCIN, 2009, p.55)

Vogels (2000, p. 182) conclui este episódio destacando que o ciclo de Abraão tem como centro promessas divinas, que lhe conferem uma unidade. A promessa da descendência ocupa lugar especial, já que sem ela as outras promessas não teriam significado. Além disso, a promessa de Deus também está relacionada com a benção, de Deus para Abraão e deste para as nações.

**Roberto Bocalete

sábado, 27 de outubro de 2012

Ola catequistas! Continuando nosso estudo do livro das origens, o Gênesis, lembro a todos(as) a importância de estar com texto bíblico na mãos! Não sejam tentados(as) a ler somente o estudo dirigido! No texto, as referências que estão citadas, serão postadas no final do estudo para quem quiser aprofundar o Gênesis! Abraços

LIVRO DO GÊNESIS (III)


3. O pastor e o agricultor (Gn 4, 1 – 16) - Tradição Javista
Caim e Abel são filhos gerados da mulher e representam a relação social segundo o projeto de Deus: fraternidade. Todavia, a autossuficiência, a ambiguidade e o pecado introduz o veneno da rivalidade e da competição que leva até a morte. Neste texto, narra-se a rivalidade do agricultor (Caim) e do pastor (Abel), talvez um resquício da ideia antiga de que Deus preferiria vítimas de animais a frutos da terra. O autor vai ainda mais longe e especifica a diversidade de profissões, demonstrando o ser humano participando da criação, dominando os animais e cultivando a terra.

O “calcanhar do ser humano está ferido” e a relação com o outro continua rompida: a relação conflitiva das primeiras profissões desencadeia na morte de Abel: o que prevalece é a concorrência, a competição, a rivalidade, o progresso negativo. A violência do fratricídio chega a Deus, que ouve o grito do oprimido. Por mais que o agressor queira disfarçar, sente remorsos e anda sempre desconfiado; perdeu-se na arrogância. É a primeira menção na Bíblia de pecado num contexto social.

4.O dilúvio: caos, arca e arco-íris (Gn 6, 1 – 9-17) Tradição Javista e Sacerdotal
A narrativa do dilúvio é importante nestes primeiros onze capítulos do Gn, porque, conforme Schwants (1989, p. 38-44), porque está no centro da história da humanidade. Embora seja evidente que a narrativa do dilúvio tenha sido composta de várias tradições diferentes, é melhor ater-se a composição final realizada na época do Exílio pela tradição sacerdotal.

A narrativa, conforme Storniolo (1990, p. 28-29) inspira-se nas inundações provocadas pelos grandes rios do Oriente Médio antigo; na sua base existe certamente uma enchente catastrófica, que o autor a utiliza com um significado simbólico de volta ao caos primitivo, certamente gerado pela corrupção desenfreada e a autossuficiência, que o escritor vai explicar servindo-se de uma lenda de gigantes lendários tidos como heróis que ao quererem ser deuses, produz uma corrupção do projeto original de Deus.

O dilúvio é um julgamento que se processa dentro das grandes catástrofes históricas, que são revelação de Deus aos homens que não se converteram a seu projeto. Alguns justos sobrevivem: Noé é modelo desse homem que sabe discernir os acontecimentos (6,14-21); é a partir dele que se constrói um mundo novo (8, 8-14) e uma nova história aberta para Deus, para o homem e para o mundo.

Conforme Balancin (2009, p. 41) o assunto principal desse relato continua sendo a descendência, agora de Noé, que gera Sem, Cam e Jafé, os três personagens que são ancestrais míticos de toda a raça humana conhecida. A geração de Noé é toda a humanidade que pela complacência divina e pela justiça de um, terá continuidade. Há uma espécie de paradoxo: a humanidade que se corrompe é a mesma que será salva.
Outro elemento fundamental é a aliança (marcada pelo arco-íris), que mostra a fidelidade contínua de Deus em querer preservar a criação, mas ao mesmo tempo requerendo a fidelidade do seu parceiro, que é o ser humano.

5. A globalização e a torre (Gn 11, 1-9) Tradição Javista
De acordo com Anderson (1977, p. 73): A narrativa da construção de Babel/Babilônia (Gn 11, 1-9) é de importância para uma teologia que considera, por um lado, a nossa comum humanidade de criatura de Deus, por outro, o pluralismo diverso fixado pelo Criador. Ela descreve o conflito entre a vontade humana e a vontade divina, um conflito d forças centrípetas e centrifugas.

Esta narrativa foi reservada para o fim o conjunto bíblico que propõe a sua versão do progresso humano: o homem chega a um estágio de desenvolvimento bastante elevado, construindo cidades através de tecnologias, contudo, a construção da cidade e da torre tem finalidade de fama e fim da dispersão. Os homens constroem para se vangloriar e adquirir fama, ações que demonstram sinais de que a vaidade e o desejo de grandeza tenham sido as grandes motivadoras do progresso. Há também o medo de que a pluralidade e a diversidade produzam o caos, fazendo com que os homens queiram manter controle sobre os outros para se manterem protegido. Dominação? Sim e para isso é fundamental preservar o pensamento único.

Ao escrever tal narrativa, é provável que o escritor esteja se referindo a grande Babilônia e sua ziggurat, isto é, a pretensão do império ou das grandes cidades em querer manter todos sob o seu domínio e seu modo de pensar.

Nos versículos 5-9 há uma ironia: enquanto os homens se esforçam para construir uma torre que suba até o céu, Javé desce para ver a cidade, a torre, como se fosse um ridículo e microscópico formigueiro. O que Javé constata é que o pensamento único se fundamenta não na necessidade de uma comunicação global, mas de fazer dela um meio de domínio global. Deus desce e confunde, ou seja, afirma que a diversidade prevalece em seu projeto: a unidade só é benéfica se preservar a diversidade. A preservação da diversidade étnica vai ajudar o redator a chegar até o final da descendência de Sem: Abraão.

6. Genealogias (Gn 5, 1- 32 [Sacerdotal] / Gn 9, 18 – 27 [Javista]/ Gn 10, 1-32 [Sacerdotal]/ Gn 11, 10 – 32 [?])
Toda a pré-história de Israel, na primeira parte do Gênesis é estruturada dentro do sistema de gerações, ligando a criação ao primeiro homem, a Noé e a Abraão. Além de determinar as relações ente os povos, o sistema genealógico tem a finalidade de colocar no tempo, remontando para trás de geração em geração, toda historia humana. As gerações vão se esparramando para esclarecer a origem dos arameus (22, 20-24), dos ismaelitas (25, 12-17), dos edomitas (36).

No contexto do exílio, os exilados encontram disponíveis os elementos ideológicos e formais para enfrentar o difícil projeto de uma busca de nova escritura do seu passado nacional, que desse sentido e confiança na refundação do próprio Israel. Assim, o sistema genealógico se tornou tema fundamental e estruturante da base teológica do exílio e do pós-exílio: a promessa da descendência ligada à criação pelo Deus único javé, a reestruturação do povo judeu e a manutenção de sua identidade na historia da humanidade.

É da humanidade resgatada por Javé que surgirá, da descendência de Sem, o povo de Israel (11, 10-32). É dentro dessa história que acontece a historia do povo de Deus.

**Roberto Bocalete