quinta-feira, 2 de maio de 2013


Realização do ser humano
**Por Pe. Juvenal Arduini (fonte: Vida Pastoral)

1. Ánthropos
No momento, o que mais deve preocupar é a situação da humanidade. O olhar há de centrar-se em Ánthropos, e não em Khronos. A realização do ser humano é fenômeno antropológico, e não expectativa milenarista. Realização é converter em realidade o que não era ainda realidade. É ser-mais. Em geral, realização expressa sentido positivo. Mas o virar realidade é ambíguo. Pois, ao tornar-se realidade, o ser humano pode converter-se em realidade justa ou injusta, solidária ou egocêntrica, emancipadora ou opressora. Quando o ser humano se faz realidade plenificante, temos autêntica realização. Mas, quando o ser humano se faz realidade degradante, não há realização. Há des-realização.

2. Tropeços
Temos tido um surto de neopragmatismo. Tudo é avaliado pelo critério da utilidade. Também o ser humano é medido pela sua utilidade ou inutilidade. Prevalece o utensilismo, a “utilizibilidade”, no dizer de Heidegger. Nesse caso, o ser humano pode valer menos que utensílio ou mercadoria. Por isso, idosos, enfermos, crianças e pobres são considerados não úteis, e até onerosos à sociedade. Abandoná-los e eliminá-los seria atitude pragmática.

O poder mundializado provocou deslocamento de metas. O grande objetivo não é a realização do ser humano, mas atingir resultados rentáveis. O ser humano está sendo substituído pela competitividade, pela velocidade da informação, pela rotatividade do capital financeiro, pelo dogma do mercado livre. O ser humano foi reduzido a personagem descartável.

A banalização do ser humano é motivo para desrespeitá-lo. Sempre que se pretende discriminar e explorar determinadas categorias humanas, começa-se por inferiorizá-las. O escritor Aldo Capitini disse: “Se os homens forem considerados como coisas, matá-los é um ruído, um objeto caído”. Nesse contexto é compreensível que o ser humano seja tratado com mórbida insensibilidade. Muitos já não se arrepiam com as chacinas semanais, com a impunidade cínica, com o trabalho escravo, com a prostituição de adolescentes, com a miséria indecorosa. A indiferença perante a demolição da vida humana é crueldade. Desbanalizar o ser humano é exigência preliminar para sua realização.

3. Des-realização
A realização do ser humano desenrola-se em situações concretas. A humanidade está sendo forçada a enquadrar-se na constelação neoliberal que tenta prevalecer no mundo. O economista Friedrich Hayek escreveu, em 1944, O Caminho da Servidão, onde condena a intervenção do Estado e reivindica liberdade total para o mercado. Hayek não quer o Estado que gaste com o bem-estar social. Mas quer o “Estado do liberalismo identificado com o livre mercado”, diz Hobsbawm. Estado que fortaleça as empresas e refreie movimentos de trabalhadores. Hayek recomenda o desemprego programado para que haja mão de obra excedente a disputar empregos. Com o desemprego epidêmico, os trabalhadores terão de aceitar salários achatados e suplicar aos generosos patrões que não os dispensem. É mesmo “O Caminho da Servidão”.

“Globalização” poderia significar sistema que contemplasse o universo e buscasse a realização de todos os seres humanos. Mas a atual globalização representa a minoria mundial que detém o poder econômico, político, científico, tecnológico, informático, e que impõe sua dominação à humanidade toda. É colonização global. E quem resistir a esse poderio mundializado, é sabotado, punido e excluído. A revista alemã especializada “Wirtschaftswoche” define bem essa globalização: “Produzir onde os salários são baixos, pesquisar onde as leis são generosas e auferir lucros onde os impostos são menores”.

Alarmados com os efeitos deletérios do neoliberalismo, muitos setores reclamam medidas que atalhem a pirataria mundial desse sistema. Para o sociólogo Alain Touraine, é hora de sair do “hiperliberalismo”, e não de ingressar nele. O sociólogo R. Kurz condena a “barbárie do mercado global”. O filósofo Rorty considera “as atuais desigualdades não compatíveis com a organização global”. O historiador Hobsbawm diz que a economia global abandona países pobres e pobres dentro dos países[1]. O neoliberalismo des-realiza o ser humano.

 4. Antropofagia
O ser humano possui tendências ambivalentes. Tende a acolher e a rejeitar, a amar e a hostilizar, a cooperar e a competir. Importa encaminhar os impulsos ambivalentes a finalidades construtivas. Alega-se que competir é “natural” ao ser humano. Mas a competição é sobretudo desenvolvida por um tipo de cultura que exacerba a rivalidade.

Autores estimularam a competição individualista. Maquiavel ensinou astúcia para a perpetuação no poder. Darwin usou a teoria da “seleção natural” para explicar o triunfo do mais apto sobre os fracos. Nietzsche proclamou a vitória do Super-Homem. Adler acentuou a psicologia da “Vontade de Poder”. B. F. Skinner é o pedagogo behaviorista da competição. Skinner inovou treinamentos psicológicos para padronizar o “comportamento humano”, no plano individual e no social. “Achamo-nos membros de uma cultura na qual a ciência floresceu e na qual os métodos da ciência vieram a ser aplicados ao comportamento humano”[2]. Os processos utilizados por Skinner são culturais. Verifica-se, pois, que o procedimento competitivo é produzido principalmente pelo tipo de cultura, e não pela programação genética, como declaram os cientistas do “Manifesto de Sevilha”, em 1986.

A competição racionalmente conduzida pode ser benéfica à sociedade. Mas a competição desenfreada gera grupos hegemônicos que controlam o Estado, a legislatura, a informação, e ampliam as desigualdades. Robert Kurz diz que a competição pode aumentar a produtividade, mas “desumaniza os homens, fazendo deles meras máscaras do dinheiro”[3]. É Zaratustra quem encarna a competição cruel e discursa em nome do Super-Homem: “Por que sois tão moles? Todos os criadores são duros. Ó irmãos: Tornai-vos duros!”[4]. A competição selvagem procria o Super-Homem e aniquila os fracos. É antropofágica.

5. Caos
A realização do ser humano enraíza-se em latência inesgotável. Todo ser humano contém vasto potencial energético. Paul Ricoeur pensa o ser humano como “Arché” e “Telos”, como matriz e finalização. Arché é fonte que espuma vitalidade. É o universo das pulsões, aptidões e inquietações. É a “Enérgueia” dos gregos, a “Evolução criadora” de Bergson, a “Libido” de Freud, a “Efervescência utópica” de Bloch, a “Ação comunicacional” de Habermas, a “Segunda, existência” de Lyotard. É Caos.

“Caos” fascina. Mitologicamente, Caos é força inordenada, nebulosa energética. Caos é dinamismo subterrâneo que turbilhona sem rumo. Caos é germinação fértil. Entre seus descendentes estão Gaia e Eros, a Terra e o Amor. A fecundidade da terra e a ebulição do amor. Segundo o Gênesis, a criação desdobra-se a partir do Caos. Deus vai configurando os potenciais de Caos. Originalmente, o ser humano é Caos. E do Caos informe irrompe a consciência, emerge a palavra, salta a liberdade. Aos poucos, o ser humano adquire Sopro de vida e Rosto de gente. O nascimento humano traz alegria porque criança é Caos. É novelo de apelos que brinca e rola pelo chão. E nada mais caótico do que a tempestuosa adolescência dos jovens. Sem Caos, a humanidade murcharia.

O ser humano carrega sempre Caos dentro de si. Indefinição, dúvidas, aspirações. Ninguém consegue ser totalmente lógico. O ser humano é Caos oscilante em busca de destinação humanizante. Para os donos do sistema dominante, Caos é a “desordem”, é o colapso da sociedade. Mas para a realização do ser humano, Caos é nascente oculta, é cabeceira de rio. Então, aparece “Telos”, que encaminha o tumulto caótico à estruturação dos grandes valores que vitalizam a humanidade. Dessa forma, integram-se Arché e Telos, Arqueologia e Teleologia, Caos e Escatologia. Caos adquire perfil através da cultura.

6. Tecido cultural
A realização do ser humano é fenômeno predominantemente cultural. A ação cultural transforma Caos em tecido sócio-histórico. Aqui, cultura é entendida em sentido antropológico. É tudo que resulta da ação humana. A cultura abrange ideias, ciência, tecnologia, filosofia, artes, linguagem, trabalho, costumes, crenças, valores, procedimentos, leis, organizações, profissões, sistemas políticos e econômicos.

Todos os grupos humanos possuem sua cultura. As culturas variam muito. Na Oceania, os samoanos têm maneira simples de viver. Os Manu são monogâmicos e competitivos. Os Arapesh são poligâmicos e solidários. Os Mundugumore são violentos e deixam os recém-nascidos sem mamar, por algumas horas, para que aprendam a reclamar e a lutar[5]. Entre os índios Akawaio, na Guiana, o xamã exerce função medicinal. A Métraux registra práticas antropofágicas entre os Tupinambá brasileiros. Mãe tupinambá recolhe sangue do inimigo, que vai ser devorado, e banha o mamilo de seu seio para que seu filhinho, ao mamar, deguste o sangue da vingança[6].

A diversidade de culturas desmente o “naturismo” daqueles que pretendem justificar práticas sociais como se fossem programadas rigorosamente pelas “leis da natureza”. A variedade de formas culturais demonstra que procedimentos, competição, sistemas políticos são criações humanas. São mutáveis e podem ser substituídas por outras formas culturais que respondam melhor às necessidades das populações.
  
7. Consciência antropológica
A realização do ser humano requer consciência antropológica. É a consciência que reconhece a densidade ontológica constitutiva do existente humano. A visão holística, iniciada pela filosofia grega, vê o ser humano integrado no universo. A integração da humanidade no cosmo não cancela a especificidade antropológica. O ser humano é saliência ontológica que interpreta o mundo, destina-se a si mesmo, planeja e organiza a sociedade.

A consciência antropológica preserva a identidade do ser humano e acentua o sentido da dignidade pessoal. Dignidade não é mercadoria. No mundo, a prioridade é o ser humano, e não o mercado, a globalização, a competição. Cabe à humanidade decidir o rumo e o conteúdo de sua realização. Não pode submeter-se aos bilionários da riqueza, ao Banco Mundial e FMI, que pretendem determinar o que a humanidade deve ou não deve fazer. É a humanidade que tem o direito de dizer aos poderosos o que devem respeitar e o que devem cumprir. Para isso, é preciso haver consciência antropológica madura.

 8. Maturação
O homem é projeto em seu próprio ser. É ser iniciado, mas inacabado. Projeto é proposta arquitetural da existência humana. O ser humano pode planejar sua vida, o que não acontece com coisas, plantas e animais. E deve incorporar as conquistas científicas e tecnológicas num projeto consistente que englobe a realização de todos os povos. Por ser projeto, o homem não é saturado. “Não é compacto”, diz E. Bloch. Pela inventividade, o ser humano pode até replanejar a vida. Não é obrigado a continuar a ser o que era. E pode começar a ser o que não era.

A maturação concretiza o projeto humano. Leva o ser humano a crescer, a participar e a buscar sentido para a vida. O vazio angustia porque é ausência de sentido. Gebsattel interpreta o vazio. “Não é que experimento o vazio. Eu sou o vazio”, diz a personagem. “A realização da existência é o que me foi tirado”[7]. O significado realiza o ser humano. O vazio desrealiza-o.

A maturação do projeto humano abrange a totalidade da vida. Amadurece as dimensões somática, psíquica, intelectual, sexual, dialogal, ecológica, econômica, política, estética, lúdica, ética, social e religiosa. Maturação é processo interminável. Quem desiste de realizar-se, desiste de viver. Por esse motivo, o ser humano lúcido sente-se “insatisfeito”. Jamais inteiramente feito. É sinal de maturidade.

9. “Tessitura carcerária”
Michel Foucault aponta três símbolos de inclusão na exclusão: o leproso, o louco e o preso. Em Caminho do Calvário, o pintor Brueghel mostra o leproso acompanhando Jesus, de longe. O louco é colocado “no interior do exterior”. O preso representa o internamento que elimina os “associais” e nocivos. “A exclusão tranca-os”[8].

Foucault analisa, com argúcia, a “tessitura carcerária da sociedade” que fabrica o “indivíduo disciplinado”. A rede carcerária aprisiona por meio de normas, tradições, instituições, isolamento, coação, pelo poder econômico, político, científico, industrial, pedagógico, informático, parlamentar, policial, e pela ortodoxia religiosa. A prisão de “delinquentes” é apenas um ponto no sistema de aprisionamento. A “tessitura carcerária” regulamenta a sociedade através de mecanismos sutis e invisíveis. Foucault fala na “cidade carcerária” constituída por dispositivos que exercem o poder de “normalização”[9]. É a cidade regida por um centro de observação, que vigia sem ser vigiado. É a cidade “Panóptica”, que vê a todos e por todos os lados. Mas a população não consegue descobrir a fonte de controle “carcerário” que a mantém aprisionada.
  
10. Des-aprisionar
Há setores que apregoam o “consenso”, o “acordo”, o “pensamento único”, com o intuito de eliminar resistências, aglutinar forças, casar interesses e conquistar adeptos. O filósofo J. F. Lyotard escreve ironicamente: “Pelo consenso, somos rogados a contribuir para a regulamentação das injustiças tão abundantes no mundo”[10]. Isto é forma de aprisionamento. Deve-se promover o “Dissenso”, de que fala Bobbio, para esfiapar a “tessitura carcerária” do consenso. E promover o “Desacordo” para quebrar o acordo. Discordar é forma de desaprisionar a sociedade.

A globalização vigente concentra riquezas, alastra desemprego e miséria. E pretende encaixar a humanidade na prisão perpétua do modelo neoliberal. A consciência histórica há de rebelar-se para desaprisionar o ser humano, “encarcerado” pela modernidade do neoliberalismo.

Um dos piores encarceramentos é a desigualdade criminosa que perpetua a estrutura escravista em estilo moderno. A desigualdade mantém a “ordem social” em que os mais fracos são prisioneiros dos mais fortes. A crueldade do chicote que sangrava a carne do escravo foi substituída pela “tessitura carcerária” do desemprego, da fome, do tráfico sexual, da demissão voluntária, da informação manipulada. Os escravos gabões matavam-se engolindo a própria língua, como protesto[11]. Todos aqueles que não podem fazer valer a palavra de seus direitos são obrigados a engolir a língua. Apressemos o dia em que nosso povo desate a língua, entrelace as mãos, erga a fronte, e exija que lhe que seja devolvida a humanidade expropriada. E o ser humano se desaprisione para realizar-se.

11. Paradigma planetário
Realização é solidariedade. E solidariedade é inclusão do “Outro”. O Outro instaura a alteridade, a intersubjetividade. Diz Lévinas: “A presença do Outro é fonte de toda significação”[12]. E escreve Gargani: “O Outro nos acompanha, mesmo sem marcar encontro, à semelhança da lua e do sol, que acompanham nosso caminho”[13].

Solidariedade pode significar compreensão, comiseração e até condolências. Mas significa, principalmente, articulação de vidas e reciprocidade de esforços para a maturação de pessoas, grupos e povos. A solidariedade madura inclui, em sua própria realização, a realização do Outro.

A solidariedade entre empobrecidos é insubstituível para que se emancipem da “tessitura carcerária” que os mantêm submissos e indefesos. Os poderosos podem ser solidários com os pobres. Mas o evangelho mostra que é raro. Deve-se ativar a solidariedade que soma a criatividade e ajunta as possantes esperanças dos chamados “fracos”.

Solidariedade é compromisso radical com a justiça. A justiça é urgência neste país rasgado pela injustiça crônica. Ser solidário é arriscar-se pelos irmãos e carregar a cruz da justiça nos ombros esfolados pela injustiça. Solidariedade não é estender o manto da paz sobre a injustiça para tranquilizar a consciência nacional. Solidariedade, hoje, é lutar obstinadamente para que a justiça garanta a realização de milhões de brasileiros subumanizados.

A solidariedade autêntica busca a realização de todos os seres humanos, em qualquer parte do mundo: Richard Rorty propõe a solidariedade “etnocêntrica”[14]. É solidariedade restrita a um grupo. Mas a verdadeira solidariedade é antropogenética. Esta solidariedade é a genuína “Globalização” a ser promovida. É o paradigma planetário para a realização da humanidade em nosso tempo.

12. Autogênese
Quando a espécie humana surge no mundo, inaugura-se a auto-evolução. O ser humano realiza-se a si mesmo. E autogenético porque tem capacidade para emancipar-se e criar-se. Diz Habermas: “O ato de autorreflexão que ‘muda uma vida’ é movimento emancipatório”[15]. Milhões de seres humanos são autofágicos porque roídos pela fome entranhada em suas vidas. É urgente realimentar a autogênese para barrar o avanço autofágico, e garantir a realização humana.

A criatividade é inerente a todo ser humano, e não apenas talento de alguns privilegiados. Também os espoliados são criadores. Reprimir ou impedir a criatividade é “encarceramento” ontológico. Segundo o Banco Mundial, no mundo há 1 bilhão e 300 milhões de pobres que vivem apenas com 1 dólar por dia. Na consciência dessa imensa humanidade encarcerada pela miséria, ressoa o testemunho de Bloch: “Mas eu fui feito para criar”[16]. E Hobsbawm avisa: “Nosso mundo corre o risco de explosão e implosão. Tem de mudar”[17]. No dia em que a criatividade autogenética de mais de 1 bilhão de “fracos” se desaprisionar, o mundo mudará. Ou então estalará.

 13. Têmpera indobrável
Realização não é produto pré-fabricado. É criação dialética. Realizar-se exige a coragem de viver conflitos. A coragem empenha vidas e não apenas palavras. Coragem tem o espírito de vanguarda que desbrava trilhas e coloca a pessoa na linha de frente. Ninguém se realiza escondendo-se na retaguarda. A coragem espanta o medo e impulsiona a realização.

Coragem não é violência. Coragem está na linha de Eros, da vida, da criatividade. A violência descende de Tânatos. É aliada da morte, por isso, degrada, arruína, ensanguenta. O corajoso suscita solidariedade, o violento impõe subserviência.

Coragem não se confunde com poder. Coragem é o vigor da vida em favor do crescimento da humanidade. O poder é a força do mando em favor da supremacia. O poder apoia-se na riqueza, na política, nas armas. A coragem entronca-se na verdade, na justiça e na dignidade. Por isso os corajosos arriscam-se e os poderosos protegem-se.

Paul Tillich diz que a coragem é “ontológica”, porque é constitutiva do ser humano. Coragem é a fibra de quem não perdeu a humanidade. Todos podem ter coragem. Mas são os pobres que, de modo especial, precisam de coragem porque são a humanidade desnuda. A coragem é a força que resta aos que perderam tudo ou quase tudo.

A coragem é têmpera indobrável. Gera profetas e mártires. Quem tem coragem recusa-se a capitular e a fugir. E reafirma-se com a palavra de Bloch: “Mas eu quero ser”. A coragem faz dos seres humanos “paráclitos”, advogados, defensores dos aprisionados. E faz testemunhas cristofânicas porque, sempre que se defende o Outro encarcerado, defende-se o próprio Cristo.

Escreve Ernst Bloch: “A vida está entre nossas mãos”[18]. Que faremos de nossa vida? A coragem não a deixe cair no chão. Cristo nos ajude a amadurecer a vida, e a reparti-la solidariamente para a plena realização

REFERÊNCIAS

[1] Hobsbawm, E., Era dos Extremos. O Breve Século XX, 1996, p. 551.

[2] Skinner, B. F., Ciência do Comportamento Humano, Edart, p. 250.

[3] Kurz, R., O Colapso da Modernização, 1993, p. 80.

[4] Nietzsche, Zaratustra, III – 29.

[5] Mead, M., El Hombre Y La Mujer, trad. p. 50.

[6] Métraux, A., Religions et Magies Indiennes, Gallimard, 1967, p. 65.

[7] Gebsattel, F., Antropologia Medica, Rialp, trad., p. 59.

[8] Foucault, M., Histoire de Ia Folie, Gallimard, 1972, pp. 22, 92.

[9] Foucault, M., Vigiar e Punir, trad. 1991, pp. 268, 269.

[10] Lyotard, J. F., Moralités Posmodernes, Galilée, 1993, p. 182.

[11] Cunha Carneiro, M., Antropologia do Brasil, ed. bras. p. 132.

[12] Lévinas, E., Totalité et Infini, Nijhoff, 1968, p. 273.

[13] Gargani, A. G., Que Peut Faire Ia Phisosophie, Paris, 1989, p. 137.

[14] Rorty, R., Objectivisme, Relativisme et Verité, Puf, 1994, p. 39.

[15] Habermas, J., Conaissance et Intérêt, trad. Gallimard, p. 245.

[16] Bloch, E., L’Esprit de L’ Utopie, trad. Gallimard, p. 204.

[17] Hobsbawm, E., op. cit., p. 562.

[18] Bloch, E., op. cit., p. 279

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